COVID-19

A NOVA PANDEMIA E AS FRONTEIRAS NO MUNDO

By Tatiana de Souza Leite Garcia

02/04/2020 12h22
Por: Kátia Bernardo
38

A nova cepa de Coronavírus, classificada como SARS-COV-2 pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV), cuja doença denominada pela Organização Mundial da Saúde (WHO/OMS) como COVID-19, provoca nos seres humanos infecção das vias respiratórias, e os sintomas mais comuns são febre, tosse seca, fadiga e dificuldades para respirar. Entretanto, já existem relatos de dores de barriga e corpo, manchas na pele, dentre outros. A emergência, disseminação, sintomas e tratamentos de uma doença depende de múltiplos fatores e contextos. A COVID-19 iniciou na cidade de Wuhan, maior cidade da China Central, com contingente populacional de, aproximadamente, 11 milhões de habitantes, importante centro industrial, comercial e de logística/ transportes. O governo chinês isolou toda província de Hubei, com cerca de 58 milhões de habitantes, para evitar que o vírus se propagasse por outras cidades, províncias e regiões do país. Após dois meses de quarentena, as autoridades do governo de Hubei estão, gradativamente, diminuindo as restrições, porque conseguiram diminuir a contaminação. Em 25 de março de 2020, as estradas foram reabertas, voos e trens voltaram a circular, e todas as pessoas que entrarem ou saírem da capital, Wuhan, precisarão ser previamente testadas para verificar se não têm a doença. Vale lembrar que a China detém o maior contingente populacional do mundo. Quando uma doença causada por vírus (infecciosa) ocorre inesperadamente, em um determinado momento e localidade, pode ser considerada um surto. Passará a ser considerada epidemia quando a doença ocorre em várias localidades, cidades e/ou regiões do mesmo país, a depender do número de casos e a população exposta. E para ser considerada pandemia, a epidemia ultrapassou as fronteiras e contaminou pessoas de outros países e regiões do mundo, que também não são imunes. A propagação de doenças em escala global é favorecida pela circulação de pessoas ou objetos infectados; por isso, muitas fronteiras podem ser restringidas e até fechadas, especialmente em situações de pandemia, afetando as viagens internacionais a turismo ou negócios, inclusive reduzindo a circulação dentro de cada país e de mobilidade nas cidades. Mais de 50 países restringiram as passagens por suas fronteiras para tentar conter a entrada/saída de pessoas e objetos contaminados pela COVID-19; porém os impactos dessas ações também afetam os fluxos de insumos e produtos e, consequentemente, as demandas dos mercados e dos setores produtivos. A atual pandemia está afetando a economia de todos os países, direta ou indiretamente, em condições não sentidas no último século. Nenhum país está protegido de sofrer com essa doença e das consequências socioeconômicas. As instituições que estão compilando os dados a respeito da COVID-19 apontam que 175 países já têm pessoas infectadas, com mais de 490 mil casos confirmados (notificados pelas autoridades) e 22 mil óbitos. Não estão inclusos os casos subnotificados, que aguardam a espera de resultados e das pessoas que são assintomáticas e não fizeram os testes. Os doentes e as mortes seriam ainda maiores se não contássemos com o esforço hercúleo de milhares de profissionais de saúde, de todos os lugares do mundo, trabalhando incessantemente para tentar conter, diagnosticar, tratar e monitorar as pessoas diante da propagação exponencial da COVID-19. Além disso, pesquisas em todas as ciências estão em andamento, notadamente na área da saúde, correndo contra o tempo para identificar todos os sintomas, testar os tratamentos e as medicações que consigam os melhores resultados, com menos efeitos colaterais e, numa perspectiva otimista e com os avanços tecnológicos na produção de imunizantes, consigamos a vacina em 2021. 

Diante desse contexto, o Brasil se encontra em algumas encruzilhadas. A primeira é política. E levanto as seguintes reflexões: Como os políticos, de todos os níveis (federal, estadual e municipal) e partidos, estão devidamente comprometidos em contribuir para evitar males maiores? Esse é o momento para disputa de poder? O fundo eleitoral destinado às próximas eleições, valor em torno de R$ 2 bilhões, não deveriam ser, imediatamente, revertidos à saúde e assistência daqueles que estão, de forma direta ou indireta, sofrendo com a pandemia? Seria coerente, nesse momento, a continuidade de disputas políticas e ideológicas, para defender e apontar quem está certo ou errado? Quais são os sacrifícios e as responsabilidades dos políticos, dos setores produtivos, das famílias, das escolas e universidades, das instituições religiosas, dos veículos de comunicação? A segunda é social e econômica, que se mostram cada vez mais interdependentes. Muitas pessoas estão reclamando do tédio de ficarem isoladas em casa. Outras estão trabalhando em home-office muito mais do que antes. Também há aquelas que continuam a trabalhar, arriscando suas vidas para que nós continuemos nos protegendo, por exemplo, trabalhadores de portarias, postos de combustíveis, segurança, comércio de alimentos e farmácias, hospitais, dentre outros serviços essenciais. Mas também há aqueles que perderam suas fontes de renda, especialmente por advir de trabalho informal ou porque as empresas já começaram a sentir a retração do consumo e da produção, que levará a recessão econômica. Além disso, parte da população acredita que é inevitável contrair a doença e não podemos colapsar a economia com o isolamento, porque pessoas morrerão pela falta de renda e empresas falirão, por isso, são contra o isolamento horizontal. Além destas, não podemos nos esquecer daquelas que vivem em condições precárias, que moram nas ruas ou em residências sem condições adequadas de se prevenirem ou de cuidar de um familiar contaminado, porque os problemas estruturais se agravam em períodos de crise, como acesso à água potável, alimentação diária em qualidade e quantidade suficientes, dentre outros recursos mínimos de bem-estar. Todas essas pessoas, apesar de suas diferenças e mundinhos, tem a mesma pergunta e aguardam ansiosas pela resposta: Quando essa pandemia acabará e voltaremos a normalidade?

Tatiana Garcia
Doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo.
Docente de Relações Internacionais e Geografia.
E-mail: [email protected]

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.